quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Malba Tahan - um brasileiro, destino, Bagdá, Allah, Maktub, Corão,

MALBA TAHAN


O LIVRO DO DESTINO

Regozijou-se o sultão ao extremo, como as maneiras do pescador e disse-lhe: - Peço-te, daqui por diante, me faças companhia em meu palácio. E já que sabes contar histórias, espero que queiras dulcificar nossos ouvidos com uma delas. 
As mil e uma noites


Certa vez – há muitos anos – quando voltava de Bagdad, onde fora vender uma grande partida de peles e tapetes encontrei num caravançará, perto de Damasco, um velho árabe de Hedjaz que me chamou, de certo modo, a atenção. Falava agitado com os mercadores e peregrinos, gesticulando e praguejando sem cessar; mascava constantemente uma mistura forte de fumo e haxixe e, quando ouvia de um dos companheiros uma censura qualquer, exclamava, apertando entre as mãos o turbante esfarrapado:
- Mak Allah! Ó muçulmanos! Eu já fui poderoso! Eu já tive o Destino nesta mão!
É um pobre-diabo – afirmava alguns. - não regula bem do miolo! Allah que o proteja!

Eu, porém, confesso, sentia irresistível atração pelo desconhecido de turbante esfarrapado. Procurei aproximar-me dele discretamente, falei-lhe várias vezes com brandura e, ao fim de algumas horas, já lhe havia captado inteiramente a confiança.

- Os caravaneiros me tomam por doido – ele me disse uma noite quando caqueávamos a sós. - Não querem acreditar que já tive nas mãos o Destino da humanidade inteira. Sim, senhor: o Destino do gênero humano.

Esbugalhei os olhos assombrado.
Aquela afirmação insistente de havia sido senhor do Destino era característica do seu pobre estado de demência.

O desconhecido, porém, que parecia não perceber os meus sustos e desconfianças, continuou:
- Segundo ensina o Corão – o Livro de Allah – a vida de todos nós está escrita – Maktub ! - no grande Livro do Destino. Cada homem tem lá sua página com tudo o que de bom ou de mau lhe vai acontecer. Todos os fatos que ocorrem na Terra, desde o cair de uma folha seca até a morte de um califa, estão escritos – estão fatalmente escritos – no Livro do Destino!

E, sem esperar que o interrogasse, prosseguiu meneando a cabeça dolorosamente:
- Salvei das mãos do xeique (ancião, chefe, soberano) Abu Dolak, depois de uma razzia terrível que esse impiedoso beduíno fizera num acampamento da tribo dos Morebes, um velho feiticeiro que ia ser enforcado. Esse feiticeiro, em sinal de gratidão, deu-me um talismã raríssimo que possuía uma pedra negra, pequenina, em forma de coração, encontrada, anos se acha e pela vontade de Allah – O Livro do Destino.

Viajei longos anos até o alto das montanhas de Masirah, para além do deserto de Dahna, a fim de alcançar a gruta encantada. Um djin – gênio bondoso que estava de sentinela à porta – deixou-me entrar, avisando-me, porém de que só poderia permanecer na gruta por espaço de poucos minutos. Era minha intenção alterar o que estava escrito na pagina de minha vida e fazer de mim um homem rico e feliz. Bastava acrescentar com a pena que eu já levava: - “Será um homem feliz, estimado por todos; terá muita saúde e muito dinheiro!” Lembrei-me, porém, dos meus inimigos.

 Poderia, naquele momento, fazer grande mal a todos eles. Movido pelos mais torpes sentimentos de ódio e de vingança, abri a página de Ali Ben Homed, o mercador. Li o que ia suceder, no desenrolar da vida, a esse meu rival e acrescentei embaixo, sem hesitar, num impeto de rancor: - “Morrerá pobre, sofrendo os maiores tormentos!” 

Na pagina do xeique Zalfah el-Albari: - “Perderá todos os haveres. Ficará cego e morrerá de fome e sede no deserto!” - E, assim, sem piedade, ia ferindo e atassalhando todos os meus desafetos!
- E na tua vida? - Indaguei, mirando-o com surpresa. - O que fizestes, ó caravaneiro, na página que o Destino dedicara à tua própria existência?
-Ah, meu amigo! - Atalhou o desconhecido, contorcendo as mãos, desesperado. - Nada fiz em meu favor. Preocupado em fazer mal aos outros, esqueci-me de fazer o bem a mim próprio. Semeei largamente o infortúnio e a dor, e não colhi a menor parcela de felicidade. Quando me lembrei de mim, quando pensei em tornar feliz a minha vida, estava terminado o meu tempo. Sem que eu esperasse, me surgiu pela frente um effrit – gênio feroz – que me agarrou fortemente e, depois de arrancar-m das mãos o talismã, me atirou fora da gruta. Caí entre as pedras e, com violência do choque perdi os sentidos. Quando recuperei a razão, me achei ferido e faminto, muito longe da gruta, junto a um oásis do deserto de Omã. Sem o talismã precioso, nunca mais pude descobrir o caminho da gruta encantada das montanhas de Masirah!

E concluiu, entre suspiros, com voz cada vez mais rouca e baixa:
-Perdi a única oportunidade, que tive, de ser rico, estimado e feliz!

Seria verdadeira essa estranha aventura?
Até hoje ignoro. O certo é que o triste caso do velho árabe de Hedjaz encerrava profundo ensinamento. Quantos homens há no mundo que preocupados em levar o mal a seus semelhantes se esquecem do bem que podem trazer a si próprios...
( Do livro Céu de Allah )





O brasileiro, Edim ibn Salim Hank Malba Tahan, ou simplesmente Malba Tahan (crente de Allah e de seu santo profeta Maomé) é o pseudônimo do escritor Julio Cesar  Mello de Souza. Nascido no Rio de Janeiro, 6 de maio de 1895, faleceu no Recife, 18 de junho de 1974), Malba Tahan, foi um professor, educador, pedagogo, conferencista, matemático e escritor do modernismo brasileiro, e, através de seus romances infante-juvenis, foi um dos maiores divulgadores da matemática do Brasil. Ele viveu quase toda sua infância na cidade paulista de Queluz, e, quando criança, já dava mostras de sua personalidade original e imaginativa, costumava escrever histórias com personagens de nomes absurdos, e, outros, sem função no contexto.

Lecionou ainda no Instituto de Educação, na Escola Normal da Universidade do Brasil e na Faculdade Nacional de Educação, onde recebeu o título de Prof. Emérito. Ministrou aulas de História, Geografia e já afirmava naquela epoca que essas disciplinas precisavam ser "atualizantes", vigentes, e por isso parou indo ministrar aulas de Física, Matemática. A ironia é que era um aluno bom em Matemática, o que o levou a questionar o ensino da mesma e a defender o uso de jogos nas aulas.

Ele surpreendia ao sair da método tradicional de outros professores que ministravam suas aulas apenas no quadro negro e a linguagem oral, ele recorria à criatividade, ao estudo dirigido e à manipulação de objetos, fazendo com que suas aulas fossem movimentadas e divertidas. Defendia a instalação de laboratórios de Matemática em todas as escolas. Em sala de aula, não dava zeros, nem reprovava. "Por que dar zero, se há tantos números?", dizia. "Dar zero é uma tolice". O professor Julio Cesar encarregava os melhores da turma de ajudar os mais fracos. "Em junho, julho, estavam todos na média'.
Foi o precursor de uma tendência que se afirma com vigor e tem adeptos em todo o Brasil: a Educação Matemática.

Por acaso ou por insistência a carreira de Julio Cesar como escritor começou com uma colaboração ao Jornal O Imparcial. Já nessa época teve a ideia de criar um pseudônimo. Ele gostava de escrever e, conhecedor de como se dava o funcionamento do jornal, sabia que o mesmo dispunha de espaço para publicações literárias. Enviou alguns escritos, contos  à Leônidas Rezende (que era o diretor do jornal na época). Pediu que os publicasse e que por serem curtos as pessoas poderiam ler no bonde. Júlio Cesar teve seu pedido negado por Leônidas que não deu importância ao seu trabalho e os papéis ficaram vários dias jogados sobre uma mesa da redação. Júlio César nada comentou e pegou os escritos de volta. Criou um pseudônimo, e assinou como  R. S. Slade, um fictício escritor americano. Na redação do jornal mostrou ao editor e disse que tinha acabado de traduzi-los e que faziam grande sucesso em Nova York. O primeiro deles (A Vingança do Judeu) foi publicado na primeira página já no dia seguinte. Posteriormente outros escritos foram aceitos com o mesmo destaque e ele, então decidiu virar Malba Tahan. Passou os anos seguintes mergulhado em estudos sobre todos os aspectos da Cultura Árabe e Cultura Oriental. Na época, o dono do Jornal carioca A Noite, Sr. Irineu Marinho, recebe a proposta de Júlio Cesar para que os escritos de Malba Tahan fossem divulgados, uma série entitulada de "Contos de Mil e Uma Noites", contos passados no Oriente e comentada pelo Prof. Breno de Alencar Bianco (outro pseudônimo de Julio Cesar). Marinho gostou do que leu e fez o pedido da publicação a Euricles de Mattos, para que esses ocupassem a primeira página do jornal.


O título do trabalho seria "Contos das Mil e Uma Noites" e os contos seriam precedidos por uma biografia de Malba Tahan e assim, os leitores não saberiam que Malba Tahan era um pseudônimo. Esses contos também passaram a ser publicados em 1925, pelo Jornal paulista Folha da Noite, numa seção denominada "Contos Árabes de Malba Tahan".

Após ter publicado seus contos nos Jornais A Noite e Folha da Noite, Malba Tahan lançou um livro denominado Contos de Malba Tahan e o inscreveu num concurso da Academia Brasileira de Letras (ABL), porém não foi contemplado. Mas, em 1930, Tahan foi condecorado por esta academia pelo livro Céu de Allah e, em 1939, pelo livro O Homem que Calculava. Ficou impossível e insustentável fazer separação dos nomes Júlio César de Mello e Sousa do nome árabe Malba Tahan, fazendo assim, a fusão entre o fictício e o real. O Ministério da Justiça em 1954 por meio de um decreto especial, no Governo Getúlio Vargas, autorizou a presença do pseudônimo Malba Tahan, na carteira de identidade de Júlio César de Mello e Sousa. Desde então, assume o pseudônimo nome em todas as suas obras.

A "farsa artística" de Mello de Sousa não ficaria escondida por muito tempo. A figura do árabe escritor foi revelada apenas oito anos depois do lançamento do primeiro livro de Malba Tahan, Contos de Malba Tahan no ano de 1925. Já em 1933, Roesalina Coelho Lisboa, uma poetisa, constatou que Radiales Kipling, indicado como tradutor da obra "Sama-Ullah, Contos Orientais, nunca fizera aquele tipo de trabalho. Julio César Mello de Souza, por distração, provocação ou mesmo numa tentativa de ser reconhecido, havia colocado em um de seus livros uma relação das “Obras de Malba Tahan”, com informações sobre tradutores.
 
Foram publicados ou reeditados mais de quinze (15) títulos assinados por Malba Tahan, entre os anos de 1933 e 1939, além de vinte e nove (29) didáticas para o ensino de matemática, assinadas por Júlio César Mello de Souza.
Até o fim da vida, Julio Cesar escreveu e publicou livros de ficção, recreação e curiosidades matemáticas, didáticos e sobre educação, com seu nome verdadeiro ou com o ilustre pseudônimo.

Produziu 69 livros de contos e 51 de matemática. O Homem que calculava foi sua obra mais famosa, e já foi traduzida para mais de 12 idiomas. Entre outros livros de destaque do autor estão Salim, O Mágico, Lendas do Deserto, A Caixa do Futuro e Mil Histórias sem Fim. Trabalhou ainda como diretor responsável da Revista Al-Karizmi, registrada em 1946. Esta revista publicava recreações matemáticas, jogos, curiosidades, histórias, problemas, artigos de colaboradores e uma extensa coleção de livros. Pouco divulgado no Brasil, pra não dizer um quase desconhecido de nosso povo.

Filosofia - Homero, Civilização Micêniica, Consciência racional, mentalidade mitopoética, mentalidade teorizante, deuses.

Quando se fala em Filosofia e ou Filosofar, vemos algumas expressões bizarras, muxoxos e resmungos. Alguns ainda acreditam que filosofar é para Filósofos. Enganam-se, pois filosofar significa entre outras coisas questionar, argumentar, analisar, refletir. Em tempos ultra modernos onde a internet é capaz de viralizar noticias em milésimos de segundos, filosofar é transcender o cotidiano, o dia-a-dia comum a todos, é ter o olhar para além do ver. É ver além, é transpassar o que foi visto, é inquirir, ir a fundo com um não contentamento a uma simples resposta. Hoje, percebemos um mundo repleto de filósofos populares, filosofando sobre tudo e todos. No inicio da história, muito antes dos Filósofos gregos que hoje conhecemos existia uma Civilização Micênica, onde o Rei de Micenas, Agamemnon, lutou contra Tróia (guerra gregos contra gregos - troianos) ao lado de Ulisses. Essa civilização se desenvolveu ainda na Idade do Bronze, entre os séculos XXVII e XIII a.C., tendo,principalmente, a mentalidade mitopoética (fazedora de mitos). Muitos séculos se passaram até essa mentalidade ir de forma lenta e gradativa se transformando em uma mentalidade teorizante, ou seja, filosófica. Até então, tudo, os problemas diários, os fenômenos, os medos, eram explicado por meio de explicações fantasiosas do mundo, por meio de mitos. As tradições eram cantadas em praças públicas, nas Ágoras, (grandes praças), a céu aberto, oralmente contadas e recontadas, de forma poética, através dos tempos. Homero, foi um que se destacou com suas obras Ilíada e Odisséia, dois poemas épicos, consideradas como principais obras da antiguidade, onde contam sobre a interferência maléfica e ou benéfica dos deuses, como nas histórias da Guerra de Tróia (Aquiles x Páris) e das Aventuras de Ulisses ou Odisseu. A existência de Homero é questionada assim como a de Sócrates. Homero era cego e há controvérsias se ele viveu no século VIII a,C. ou IX a.C.. Interessante o fato de suas obras terem rompido as barreiras do tempo e se perpetuado para além dele até os dias atuais. Suas obras foram didáticas e importantes para as crianças da época, onde aprendiam desde muito cedo à respeito dos deuses, do homem, das guerras e da Civilização Micênica. Se ele existiu de verdade ou se é um personagem criado, lendário, parece ser o menos importante tamanha a importância de suas obras. Não se sabe ao certo a cidade onde nasceu, podendo ser em quaisquer desses locais da Grécia Antiga: Esmirna, Colofón, Atenas, Quios, Ítaca, Salamina, Rodas, e ou Argos. Homero, assim como Sócrates, nunca escreveu uma linha sequer, tendo suas obras escritas ou compiladas de tradições orais, por outros escritores antigos do mesmo período. Essa consciência mítica foi sendo aos poucos substituída, não em sua totalidade, mas concomitante a ela, surgia a consciência teorizante ou racional. Onde antes as pessoas eram tranquilizadas através da explicação simplista da ira dos deuses (mitos ou mitopoética), frente aos desconhecidos fenômenos da natureza, como secas, tempestades, pragas, males, epidemias, esterilidade feminina, entre outros, agora a mentalidade teorizante, viria a explicar de forma lógica, racional. Onde antes só existiam como recurso os rituais e cerimônias para agradar esses deuses coléricos, surge, gradativamente, uma busca para além desse pensamento mítico, limitador dos humanos e de sua racionalidade e habilidade para dar conta no campo do concreto, uma luz na caverna, chamado "milagre grego", como o aparecimento da escrita, da moeda, da lei e da polis (cidades-estado). Não se pode precisar o momento dessa transição do pensamento mítico para o pensamento racional e filosófico, pois um não invalida nem extermina o outro, mas tão-somente, possibilita que o mito não seja a única forma de se ver e compreender o homem e o mundo.

Professora Mª Dirce Barcelos Silva

Referências Bibliográficas:

BUCKINGHAM, Will; at all. O Livro da Filosofia. Editora Globo. São Paulo, 2011.
CABRAL, Cleides Antonio; Filosofia, Editora Pillares, São Paulo,2006.
READ,Rupert; Filosofia aplicada: política e cultura no mundo contemporâneo; São Paulo, Rosari,ed. 2009
SMITH, William. "Philola'us". Dictionary of Greek and Roman Biography and Mythology. ed. (1870).

SPINELLI, Miguel. Filósofos Pré-Socráticos. Primeiros Mestres da Filosofia e da Ciência Grega. 2ª Ed., Porto Alegre: Edipucrs, 2003

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Relacionamento homossexual

Difícil descrever e escrever sobre homossexualidade. Segundo Lacan a relação sexual não existe. Mas o que dizer de uma relação onde me relaciono comigo? Assim o é na homossexualidade. Eu me relaciono com o que aquele sujeito representa de mim, em mim e para mim.
Há nesse interím, um excesso de sofrimento, mas como toda pulsão é ambivalente, tem a dor mas também tem o gozo.
A homossexualidade se assemelha a anorexia - é o mais gozar "da", "na" retenção, proibição, transgressão.
O fato de se reter é gozo puro. O individuo não consegue se ver como sujeito.
O outro é o estruturante. O outro existe e você existe no outro, é o ver-se no outro, no espelho.
Sou eu que dou o significado para o outro, por isso me relaciono comigo mesmo.
O olhar do outro devolve a imagem do que eu sou mas não consigo ver por mim mesmo e sim através do outro. É o olhar que perpassa pelo outro que me traduz.
Se eu desejo é porque algo me falta. Por isso se recalca tanto os desejos. Nem todo desejo é para ser realizado, mas ele se mantém latente e isso independe de sua realização.
Só quando você perde ou o outro morre de fato, é que você pode idealizar. É a fase do luto.
Mas esse é um papo futuro.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Mosaicos

Somos mosaicos. mosaicos do presente, do passado e querendo ser do futuro. Pedaços de vestes que nos vestem, pedaços de pessoas que se foram e que estao conosco.
Somos mosaicos da sociedade, fazemos parte de um todo, somos partes de um todo.
Um todo solitário, um todo junto e separado, junto e misturado, mas no fim, um todo só.
Pedaços de um mosaico chamado vida. Somos colocados ali sem sermos perguntados se queremos e somos tirados sem aviso.
Algumas pessoas são mosaicos coloridos, outras são só cinza. refletem a cor e a dor de suas almas, de suas auras. Se é colorido demais incomodamos pelo brilho e variedade de cores. muitos querem que sejamos cinza de qualquer jeito, pra não destoar dos demais, da maioria.
Temos que ser tom bege, tom sobre tom, degradê, composê.
A difícil e impossivel arte de agradar a todos, nos salva; no fim somos todos mosaicos formados de inteiros.
Inteiros quebrados pela dor, pelo amor, pelo horror, pelo torpor que nos embriaga e se achega devagarinho e se acopla nos fazendo afinal mosaicos nublados, descorados, entorpecidos e cansados de tanto tentar não ser só mais um, mas ser - o mosaico.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Um dia de chuva

Verão, praia, mormaço, um grupo de mulheres amadurecidas pela vida e na idade, rsrs, resolvem comemorar o aniversário de uma amiga em comum. De início o grupo parece estranho, mas depois de umas cervejas, coca-colas e guaranás tudo se torna mais fácil. O diálogo flui, a gargalhada é dada com facilidade. Entre plásticas, silicones e belezas a se contemplar, sempre surge a nostalgia do tempo passado, mas não perdido, vivido e nunca esquecido. Sempre me perguntava o por quê de pessoas mais velhas, coroas curtirem seus carros novos, viverem em passeios inacabáveis. Pra quê? dizia eu, depois de gasta a cútis, o olhar já embaçado, as pernas fracas, porque não ficam simplesmente em casa? Lêdo engano, agora com o olhar embaçado para as coisas fúteis se vê o melhor, com a surdez temporária, ouve-se a melodia das vozes amigas, com os passos curtos, anda-se devagar porque como diz Almir Satler, já corremos demais. Sorrimos agora de verdade, na essência, sem máscaras, sem delicadezas obrigatórias, não temos mais tanto tempo a perder. Nosso tempo é precioso, trabalhamos demais, merecemos o desfrute de andarmos na praia com nossas peles não de Giseles, mas de pessoas vividas e que sabem que cada pinta, cada sarda, cada cicatriz tem sua história. E que todas elas valeram a pena. Faz parte do meu show, meu amor, meu pobre moço novo Cazuza, que com tanta pressa foi-se tão cedo. O bom licor, o bom vinho, a boa cachaça, nunca saem direto do "forno" para o consumidor. Assim somos nós, precisamos amadurecer sem apodrecer, adoçar sem azedar, nutrir a beleza de uma vida vivida sem remorsos e sem culpas. Só viver, afinal não sabemos a hora de nossa partida. Viva bem de verdade. Foi isso que fez esse grupo de mulheres coroas, alegres e felizes cada uma a seu jeito, nessa linda tarde de chuva, tendo o mar como companhia e as sonoras gargalhadas a quebrar junto as ondas que iam e viam em busca de nossa companhia.

Homossexualidade

O ser ou não ser, eis a questão, na homossexualidade, gera conflitos internos, externos e eternos, dores na alma. Dores e alegrias, pois o ser, estar em uma escolha sexual que difere da maioria é o que define o sujeito? Desde quando a opção sexual pode definir e limitar o sujeito? Então, é nisso que ele se resume? O ser transcende o estar naquela vibe. Somos únicos, irrepitíveis, magníficos em nossas limitações. Somos, estamos, vivemos pela via do outro, enquanto que viver por e para nós deveria nos bastar.

"O homem sexual cede todas as mulheres ao pai e assim se esquiva de qualquer conflito com ele; a mulher homossexual abandona todos os homens à mãe, prepara o terreno onde se atribui a missão de enfrentar o pai no próprio campo do desejo. Onde o homem homossexual desiste, a mulher homossexual, ao contrário, desafia o desejo paterno, disputando suas mulheres e a posse do falo ou de suas insígnias." Serge André
Na homossexualidade feminina, quando se presencia conflitos familiares ainda na infância e torna-se a defensora do sexo frágil, a figura do falo, o desejo de possui-lo e de enfrentamento ao agressor é tão mais forte que o preconceito que a cerca, que nada mais importa. O que vale é o bem estar da parte defendida e protegida, a mãe. Não ter o órgão masculino torna-se fator secundário, já que o falo imaginário é possuído e introjetado em algum momento variando entre a forma bruta e ou indelével. Não importa muito o momento da apreensão do falo desde que ele se encaixe, te abrace e nunca mais te deixe. O poder do falo, não do pênis propriamente dito, um coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, supera a feminilidade do sexo dito frágil. Posturas de autonomia quando possuidora do falo não retornam mais a fase original, a forma ou fôrma bruta, manipulada pela maioria, digo da sociedade machista. Diz-se do macho e da fêmea e de forma errônea, que o macho é forte e a fêmea fraca, sendo lêdo engano, pois só creio no ativo e no passivo. Quantos casais que nos cercam onde o homem passivo é dominado , digo isso não de forma pejorativa, pela mulher ativa a verdadeira detentora do falo na família. Ela é quem trabalha, quem sustenta, quem toma as atitudes, quem resolve tudo em todo o tempo com jornada tripla de trabalho, tendo que ser de boa a excelente profissional, exímia mãe e esposa e ainda tem de gozar a noite pro seu macho. Sim, gozar com gemidos e dizer que foi muito bom, senão não será uma mulher completa. Como a sociedade tem cobrado e colocado sobre os ombros de várias mulheres a responsabilidade de ser não só a ajudadora, mas a mulher perfeita, organizada e feliz. Sem contar que a bela, não pode ser fera, e tem que ter a beleza do corpo exigido pela midia. A mulher perfeita. Talvez por isso, digo talvez, muitas prefiram se travestir de homens, coçar o saco, cuspir na calçada a ter que seguir o estereótipo que mutilou, exterminou seu amor primeiro, a mãe.

sábado, 25 de dezembro de 2010

As muitas curvas do caminho

E era-lhe necessário que passasse por Samaria livro de João 4:3 e 4. Jesus estava a caminho da Galiléia, a Judéia ficava ao sul, a Galiléia ao norte e entre ambas estava situada Samaria. Era mais fácil e mais perto seguir em linha reta. Mas era necessário que Jesus fosse a essa cidade desprezada, julgada e condenada pelos judeus.


Que homem é esse que se acha no direito de quebrar regras, tradições há muito instituidas pelos sacerdotes e pela Lei Mosaica? E chega ao ápice do absurdo, humanamente falando, de conversar com uma mulher adúltera que já tivera 5 homens e o que tinha atualmente não era seu. Tirava água do poço de Sicar em hora diferenciada das demais, pois não era aceita pela sociedade. Jesus se revela a essa mulher como profeta e a transforma em uma missionária sem curso, sem teologia, mas pela força do Teu poder, pela Tua palavra. Ele desviou sua rota por amor a uma vida, antevendo outras vidas alcançadas através do testemunho dessa mulher. Se beberes da água que te dou nunca mais terá sede. Imagine as emoções dessa mulher, o ser perdoada pelos muitos pecados, estou conjecturando, fê-la ir de forma quase que histérica a todos de perto e de longe, anunciando Ele pode te curar no corpo, na alma e no espírito. Não se atormente mais, Jesus o Filho de Deus pode destruir essa fortaleza que você levantou com tantos erros, falhas, desesperanças e desamores. Ele pode fazer fluir de dentro de você rios de água viva. Só Ele pode nos julgar e hoje está na posição de nosso Advogado Justo, junto ao Pai. Se Ele não nos condena, quem é o homem, simples mortal para nos condenar?